Bebê morcego órfão sendo alimentado no Australian Bat Clinic & Wildlife Trauma Centre

Veganismo não é o bastante

por Lara André

O veganismo é insuficiente porque os animais não humanos não oprimidos pelos seres humanos ainda são profundamente oprimidos e violentados pela natureza – apenas mudar hábitos de consumo e libertar os animais escravizados não basta. O veganismo diz respeito basicamente a obrigações negativas para com os animais não humanos, ou seja, obrigações do tipo não-fazer: não aprisionar, não estuprar, não bater, não esfaquear, não chicotear, não aterrorizar, não torturar, não queimar, não matar. É preciso que ativistas da causa animal entendam que todas essas obrigações, que parecem muitas, na verdade não são o máximo que podemos fazer – são apenas o mínimo do mínimo que podemos fazer pelos animais não humanos.

Veganismo é importante, mas representa somente uma pequena parte do que significa assumir uma postura antiespecista1. O veganismo não é um ápice moral que alcançamos apenas mudando alguns hábitos de consumo – tais mudanças comportamentais apenas nos ajudam a cumprir nossas obrigações negativas para com os animais não humanos, mas não garantem que estamos, de fato, assumindo uma postura antiespecista.

O antiespecismo preconiza que, além de várias obrigações negativas, devemos assumir também obrigações positivas com relação aos animais não humanos – da mesma forma como assumimos tais obrigações com relação aos demais seres humanos. O que fazer, então, pelos animais não humanos de maneira proativa e visando reduzir os danos naturais que os vitimam? Dar alimento aos que passam fome, dar água aos que sentem sede, resgatar os acidentados, cuidar dos feridos, dar remédio aos doentes, dar abrigo aos desprotegidos, amparar os órfãos, confortar os aflitos, fornecer atendimento médico e odontológico preventivo e curativo, aplicar vacinas, desenvolver contraceptivos seguros, reduzir dramaticamente a mortalidade infantil, reduzir o medo e o stress e aumentar o bem-estar geral dos bebês, dos adultos e também dos indivíduos idosos.

Todas essas são apenas algumas das muitas ações que podemos fomentar para melhor defender os interesses que os animais não humanos têm em não sofrer2 e também em desfrutar de suas vidas. Se nosso objetivo é alcançar um estado de justiça e bem-estar para todos os seres sencientes3, o ativismo antiespecista precisa trabalhar para muito além do fechamento dos matadouros e dos laboratórios de vivissecção – precisamos garantir que conhecimento científico, recursos financeiros e tecnológicos possam ser distribuídos da maneira mais eficiente e igualitária possível dentre os seres sencientes – ou seja, todas as coisas que há muito tempo beneficiam os seres humanos e nos ajudam a sobreviver melhor em um planeta repleto de hostilidades precisam deixar de serem consideradas privilégios apenas da nossa espécie.


Notas

1. Especismo. Especismo é dar consideração moral diferente a diferentes seres sencientes devido a razões injustas. Mesmo quando os animais não humanos não são explorados, ainda assim são discriminados porque eles não são levados em consideração de maneira séria. In: Ética Animal. Disponível em: <http://www.animal-ethics.org/especismo-pt/>. Acesso em 21 abr. 2016.

2. O interesse em não sofrer. Existem muitos animais não humanos que podem sentir prazer e dor. Isso se deve ao fato de, tal como os humanos, possuírem a capacidade de ter experiências. O sofrimento é ruim por definição, mesmo quando conduz a algo positivo. O sofrimento dos animais não humanos deve ser levado em conta, assim como gostaríamos que o nosso próprio sofrimento o fosse. In: Ética Animal. Disponível em: <http://www.animal-ethics.org/interesse-sofrer/>. Acesso em 21 abr. 2016.

3. O argumento da imparcialidade. O argumento da imparcialidade afirma que o especismo é incompatível com a justiça. Pode ser apresentado contra qualquer tipo de posição que mantenha que está justificado tratar pior animais não humanos do que seres humanos. Segundo o argumento da imparcialidade, manter tal posição é uma forma de discriminação. In: Ética Animal. Disponível em: <http://www.animal-ethics.org/argumento-imparcialidade/>. Acesso em 21 abr. 2016.

2 comments

  1. Asor Sined says:

    O que me deixa perplexo nessa linha de pensamento é o esquartejamento forçado do mundo natural em várias partes, aparentemente, independentes, esquecendo noções básicas de inter-relação e codependência entre espécies de um determinado bioma. A natureza, segundo o artigo, é personificada em uma déspota impiedosa, que por algum motivo causa sofrimento e morte desnecessários em “seus” (?) animais.

    O problema de tal visão reducionista é que, ao não entender o funcionamento holístico da natureza, falha em observar (propositalmente ou não) que a simbiose e, consequentemente, a sintropia, é a norma no mundo selvagem. E por motivos óbvios. Relações entrópicas – sejam na forma de parasitismo, amensalismo ou outras – não só não levam a um crescimento do sistema, como o atrasam ou até o inibem. Já o mutualismo, relação vastamente observada no reino vegetal, é o que possibilita a gradual expansão de sistemas. Caso a natureza fosse o monstro retratado pela autora, florestas complexas como a amazônia sequer existiram.

    O mais irônico é que o argumento do sistema nervoso central é também especista, pois por demonstrar um conhecimento extremamente superficial e equivocado – baseado principalmente no cientismo e a dificuldade eterna em lidar com o “problema” da consciência – sobre o que é viver, torna permissível o tratamento indiferente de seres, supostamente, não sencientes. Um grande “ufa” para os valores morais de qualquer vegan ao consumir vegetais, raízes e verduras.

  2. Luciano Carlos Cunha says:

    Olá, Denis Rosa

    Os defensores dos animais não estão a negar que na natureza também ocorre tudo isso que você mencionou. Mas, isso não mostra que não acontece a maximização do sofrimento e da morte através da estratégia reprodutiva predominante. Uma olhada básica em dinâmica de populações ajudará você a entender por que isso é assim:

    http://dspace.usc.es/bitstream/10347/7395/1/59-77.pdf

    Sobre o argumento de que o critério do sistema nervoso central é especista, isso só seria verdadeiro se algum ser estivesse a ser excluído de maneira injustificada com tal critério. Se você quer dizer que seres que não possuem um sistema nervoso centralizado são sencientes, é pouco provável que surja consciência em organismos assim. Seja lá se nós afirmarmos que a consciência é apenas um estado do cérebro ou se é algo não material que que interage com, mas não se resume o cérebro, temos que concordar que ela precisa de um meio físico para se manifestar (ninguém nega que cérebro e consciência possuem uma relação). E, fica difícil entender como é que organismos sem células nervosas, sem cérebro, sem um gânglio que desempenha função similar, ou com apenas células nervosas que não estejam centralizadas o bastante conseguiriam chegar a gerar consciência.

    Se, por outro lado, você quer dizer que é o critério da senciência mesmo que exclui injustificadamente os seres não sencientes, isso só faria sentido se seres não sencientes pudessem, de alguma forma, serem prejudicados. Mas, como é possível que um organismo seja prejudicado se não consegue experimentar determinados estados como positivos e outros como negativos (sendo, portanto, indiferente para ele se encontrar neste ou naquele estado)?

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