Flying Fish” (Peixe-voador) em British Zoology (1812). Gravura em preto e branco. (domínio público)
Flying Fish” (Peixe-voador) em British Zoology (1812). Gravura em preto e branco. (domínio público)

Logotipo – O peixe voador

O logotipo do Perspectiva Animal utiliza uma ilustração antiga de um peixe-voador. Existem cerca de 40 espécies diferentes de peixe-voador distribuídas em águas tropicais e subtropicais de todo o planeta. Contrariando a visão predominante até pouco tempo atrás, de que os peixes, apesar de possuírem um sistema nervoso central, seriam animais incapazes de ter sensações ou de sofrer, muitos cientistas atualmente defendem que os peixes, mesmo tendo cérebros organizados de maneira diferente de outros animais vertebrados, possuem estruturas com a mesma origem evolutiva que o cérebro de mamíferos1, estruturas as quais sabemos desempenham um papel-chave na geração de sensações e emoções (a amígdala) e o aprendizado (o hipocampo).

Se essas áreas são danificadas, é possível observar efeitos comportamentais similares tanto em peixes como em mamíferos, sugerindo que tais estruturas cerebrais desempenham funções semelhantes. Essas descobertas ajudam a caracterizar os peixes, como o peixe-voador, como animais complexos que podem muito bem serem sencientes e conscientes, com capacidade de sofrer e também de desfrutar. Esse conhecimento científico deve contribuir para melhorar os argumentos de defesa dos interesses dos peixes em geral.

Uma característica dos peixes-voadores refere-se ao seu crescimento acelerado e ao curto ciclo de vida – os indivíduos atingem a maturidade sexual aos 90 dias de vida e chegam a viver menos de dois anos2. Como é tipico das espécies que maximizam o número de filhotes como estratégia reprodutiva3, a fêmea do peixe-voador costuma desovar milhares de ovas a cada período reprodutivo. No caso do peixe-voador do Atlântico, fêmeas chegam a liberar até cerca de 28.000 ovas4  de uma vez. Se considerarmos que em seus habitats naturais as populações de peixe-voador tendem a se manter em equilíbrio ao longo do tempo, concluímos que aproximadamente apenas duas das 28.000 ovas de uma única fêmea resultam em peixes adultos – a maioria absoluta dos filhotes morre, em diferentes estágios de desenvolvimento e senciência, muito antes de alcançar a idade adulta.

O desvalor dessa estratégia reprodutiva fica ainda mais evidente se considerarmos que durante o período de desova, é possível observar cardumes de até um milhão de peixes-voadores em uma única área5. Se metade deles forem fêmeas (500.000 indivíduos), e se estimarmos que 20% delas (100.000 indivíduos) são fêmeas que atingiram a maturidade sexual e desovarão 28.000 ovas cada, dos quase três trilhões de descendentes gerados (2.800.000.000), apenas cerca de 200.000 sobreviverão até atingir a idade reprodutiva, repondo a população original que conseguiu se reproduzir na geração anterior. Mesmo assumindo que uma boa parte das ovas acabe destruida antes de formarem seres plenamente sencientes, ainda assim o número de animais que nascem só para sofrer é gigantesco. Tendo em vista que praticamente todos os modos como os animais morrem na natureza são terríveis (inanição, predação, doenças etc), trilhões de filhotes de peixe-voador têm vidas que se resumem a nascer, lutar desesperadamente por suas vidas, competindo com seus próprios irmãos e irmãs por alimento insuficiente, sofrer e finalmente morrer de fome ou predado por outros animais marinhos.

A seleção natural pode ser definida como um processo pelo qual mudanças evolutivas aleatórias são selecionadas pela natureza de uma forma ordenada, não-aleatória. A evolução, no entanto, não é um processo que otimiza os animais para o bem-estar e a felicidade, mas sim para a transmissão de genes de geração à geração e a continuidade das espécies. Para muitos animais, isso significa gerar centenas ou milhares de descendentes, sendo que apenas alguns poucos sobrevivem até a idade adulta. É importante lembrar que a imensa maioria das espécies se reproduz na natureza por meio de estratégias reprodutivas, similares a do peixe-voador, que maximizam o número de descententes e, consequentemente, também o desvalor agregado a essas estratégias.

Um peixe-voador que sobrevive ao período de infância e se torna adulto, possui nadadeiras peitorais altamente modificadas que lhe permite dar breves voos junto à superfície da água, um mecanismo de defesa para fugir de seus vários predadores, que incluem peixes maiores como o atum,  a cavala, o peixe-espada, o dourado e o marlim. Pelo ar, no entanto, o peixe-voador costuma ser atacado por aves marinhas como as fragatas. A angustiante luta pela sobrevivência em seu habitat natural está perfeitamente descrita neste vídeo da BBC (abaixo) que faz parte da série “The Hunt” (“A Perseguição”). No episódio “Hunger at Sea” (“Fome no Mar”), Sir David Attenborough narra a saga de peixes-voadores nadando e voando desesperadamente na tentativa, quase sempre frustada, de fugir do dano da morte por predação. Se os peixes-voadores se arriscam em vôos muitos altos, tornam-se presas fáceis para as fragatas. Se mergulham tentando fugir dos ataques aéreos, podem cair direto na boca de um dourado.

Rotineiramente, peixes-voadores encontram-se em situações de dupla-perda6, situações em que perdem sempre, qualquer que seja sua escolha: não importa se escolhem nadar ou voar, o resultado será sempre negativo: a morte. Para agravar a vida já bastante complicada dos peixes-voadores na natureza, eles também são considerados “iguarias” e costumam ser pescados por seres humanos ao redor do mundo. A carne dos peixes-voadores também é bastante utilizada como isca na pesca de peixes maiores e de valor comercial mais elevado, como o atum.

O peixe-voador foi escolhido como símbolo do Perspectiva Animal por representar de forma exemplar a condição trágica de indivíduos de outras espécies em sua luta constante contra uma série de processos naturais danosos que começa pela própria estrátegia reprodutiva (que, ao maximizar as chances de sobrevivência da espécie, também maximiza o sofrimento dos indivíduos) e termina de forma implacável com a predação, pela água, pelo ar ou pela pesca. Desejamos que a batalha incansável do peixe-voador por sua sobrevivência inspire um momento de reflexão em nossos leitores sobre a realidade da vida dos animais na natureza.


Notas

1. PLANELLAS, S.R. How do we know whether fish have feelings too?. In: BBC. Londres. 20 de fevereiro de 2016. Disponível em: <http://www.bbc.com/earth/story/20160220-do-fish-have-feelings>. Acesso em: 21 mar. 2016.

2. QUEIROZ, R.M.V.R. et al. Idade, crescimento e biologia reprodutiva do peixe voador- holandês Cheilopogon cyanopterus do arquipélago de São Pedro e São Paulo. Universidade Federal Rural de Pernambuco, 2012. Disponível em: <http://bdtd.ibict.br/vufind/Record/URPE_e5eb4bfae5fce0c437e7df5c7d958cf1>. Acesso em: 26 mar. 2016.

3. LOTKA, A.J. Analytical Note on Certain Rhythmic Relations in Organic Systems. In: Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America 6, 1920 pp. 410-415. Disponível em: <http://www.pnas.org/content/6/7/410.extract>. Acesso em: 21 apr. 2016.
VOLTERRA, V. Variations and Fluctuations of the Number of Individuals in Animal Species Living Together. In: R. N. Chapman (Ed.). Animal Ecology. McGraw–Hill, 1931, pp 409-448.
PIANKA, E. R. On r- and K- Selection. American Naturalist, vol. 104, pp. 592-597, 1970.

4. ROSS, S.W., NECAISE, A.M., SULAK, K. J., Reproduction and mating behavior of the Atlantic flyingfish, Cheilopogon melanurus (Exocoetidae), off North Carolina. Bulletin of Marine Science, 77(3), p. 363–375. 2005. Disponível em:<https://www.researchgate.net/publication/233712492_Reproduction_and_mating_behavior_of_the_Atlantic_flyingfish_Cheilopogon_melanurus_Exocoetidae_off_North_Carolina>. Acesso em: 26 mar. 2016

5. STEVENS, P.W., BENNETT, C.K., BERG, J.J. Flyingfish Spawning (Parexocoetus brachypterus) in the Northeastern Gulf of MexicoEnvironmental Biology of Fishes. Vol. 67, ed.1, p.71-76. 2003. Disponível em: <http://link.springer.com/article/10.1023%2FA%3A1024496801232>. Acesso em: 26 mar. 2016.

6. Situação de dupla-perda. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2013. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Situa%C3%A7%C3%A3o_de_dupla_perda&oldid=36698509>. Acesso em: 21 mar. 2016.