Por que a maioria das pessoas não se importa com o sofrimento dos animais selvagens

Por Ben Davidow
Tradução: Lara André
Revisão: Claudiney Nako e Luciano Carlos Cunha

Resumo

Várias intuições, tais como o viés do status quo, a “crença no mundo justo” e a ausência de dano intencional, impedem que as pessoas encarem o sofrimento dos animais selvagens do modo sério como esse assunto deveria ser tratado. Felizmente, os movimentos mais progressistas têm conseguido superar preconceitos arraigados, restando, portanto, esperança para o movimento em favor da redução do sofrimento dos animais selvagens.

Introdução

“Primeiro eles te ignoram, depois riem de você, depois lutam contra você, e então você vence”

–frase atribuída a Mahatma Gandhi

Se um ser extraterrestre visitasse nosso planeta, talvez achasse estranho que eventos raros como ataques de tubarão prendam tanto a atenção das pessoas enquanto um problema generalizado como o sofrimento dos animais selvagens é completamente ignorado.a Por que o sofrimento dos animais selvagens é invisível ou irrelevante para a maioria das pessoas? Minha esperança é de que ao explorar essa questão, possamos ter uma noção das barreiras que o movimento em favor da redução do sofrimento dos animais selvagens enfrenta e como poderíamos vencer tais barreiras.

O sofrimento dos animais selvagens é um fato corriqueiro

Nossos cérebros são programados evolutivamente para se interessarem por fatos excepcionais. Isso fazia sentido nos primórdios de nossa espécie, quando uma falha em registrar uma mudança brusca em nosso ambiente poderia significar uma passagem de apenas ida para o esôfago de um tigre. A equação “novidade=importância” ficou integrada aos nossos cérebros.

Hoje em dia, no entanto, nossas maiores ameaças são coisas como doenças cardíacas que se desenvolvem gradualmente em consequência de escolhas habituais e não deslizes momentâneos.b

Dessa forma, os problemas éticos atuais são sistêmicos e não repentinos.

Pense em sweatshops (fábricas com péssimas condições de trabalho), criação intensiva de animais, tráfico de pessoas e maláriac.

O sofrimento dos animais selvagens é ainda mais sistêmico: ele não tem novidade, não tem um começo ou um fim claramente definidos no tempo. É um fato trivial, corriqueiro.

Nosso desejo de consumir doces possui raízes evolutivas e nos foi útil no passado, mas agora nos traz prejuízos – o mesmo ocorre com nossa tendência a dar atenção especial a novidades. Tanto comer donuts como acompanhar notícias inusitadas sobre ataques de tubarão ou atos isolados de violência de alguma forma nos trazem satisfação. Mas esse comportamento resulta em uma percepção distorcida do mundo. Por exemplo, verificando as manchetes do dia, é fácil concluir que o mundo anda mais violento do que nunca. Mas as melhores evidências científicas sugerem o contrário: a violência entre os seres humanos declinou dramaticamente nos últimos séculos.d

Da mesma forma, nossa preocupação com fatos excepcionais nos leva a ignorar problemas constantes e triviais como o sofrimento dos animais selvagens. Esses problemas nunca chegam às manchetes dos jornais, e é fácil esquecer que eles existem ou assumir que não importam.

O sofrimento dos animais selvagens não é sobre nós

Nossos cérebros tribais estão interessados em nossos próprios problemas e nos problemas que surgem com quem temos relações recíprocas (por exemplo, com cães e gatos). O sofrimento dos animais selvagens afeta principalmente animais com cérebros pequenos, de espécies não mamíferas e com as quais nunca interagiremos.

Toda maneira nova de pensar que deslocou os seres humanos (especialmente aqueles em posições de poder) do centro do universo encontrou intensa resistência ao longo da história: o heliocentrismo, a teoria da seleção natural, os direitos civis etc.

Do mesmo modo, alegar que o sofrimento dos animais selvagens é um problema ético sério ameaça a singularidade humana. Apontar em 2013 que animais selvagens – e não os humanos – são o epicentro do sofrimento no planeta é uma blasfêmia semelhante a apontar em 1613 que o Sol – e não a Terra – é o centro de nosso sistema solar. É improvável, por exemplo, que uma americana pudesse ser eleita para um cargo público caso sugerisse que o sofrimento dos animais selvagens merece prioridade em relação ao combate à violência causada por armas de fogo.e

O sofrimento dos animais selvagens é o status quo da natureza

O viés cognitivo do status quo prevê que as pessoas têm uma preferência inata por ideias e situações conhecidas e uma aversão a mudanças. E não há nada que represente mais o status quo do que a natureza. Quando animais selvagens chamam nossa atenção, quase nunca é por um desejo de mudança, pelo contrário, em geral trata-se de manter inalterada uma situação, como, por exemplo, a conservação de espécies. Quando as pessoas doam dinheiro para causas voltadas para os animais selvagens, quase sempre é para proteger o modo como as coisas são ou para restaurar o modo como costumavam ser, por exemplo, reestabelecendo espécies ameaçadas de extinção.

A inviolabilidade do status quo explica por que pessoas religiosas podem pensar que intervir no sofrimento dos animais selvagens é alterar a criação de Deus e também explica porque cientistas podem achar que se trata de uma transgressão na seleção natural. Em ambos os casos, a intuição básica é a mesma: interferir no mundo natural e nos processos naturais é errado.

O sofrimento dos animais selvagens é injusto

A “crença no mundo justo” é um viés cognitivo inato que nos faz acreditar que o mundo é essencialmente justo: ações nobres são recompensadas e ações maléficas são punidas.

Um mundo justo é desejável porque é previsível e seguro. Em um mundo justo nós estamos no controle: desde que sigamos as regras, estaremos bem.

Esse viés explica, por exemplo, por que muitas pessoas culpam os pobres por sua situação precária e falham em enxergar os problemas estruturais que criam a pobreza. Também pode explicar por que as pessoas banalizam o sofrimento dos animais selvagens.

O sofrimento dos animais selvagens, afinal, sugere que nós vivemos em um mundo no qual criaturas nascem para vidas de sofrimento e não podem fazer nada para mudar isso. Mesmo que nossos cérebros racionais entendam que o mundo não é justo, a parte emocional de nossos cérebros precisa acreditar que o mundo seja justo. Confrontar o sofrimento dos animais selvagens significa confrontar a realidade de que o mundo é intrinsecamente injusto. Até mesmo para a mais cínica das pessoas, essa realidade pode ser assustadora.

O sofrimento dos animais selvagens é racionalmente importante

Quando fazemos cálculos e estudos racionais que levam os seres sencientes em consideração, o sofrimento dos animais selvagens emerge como um grande problema. Infelizmente, isso não significa muito quando se trata de despertar preocupação e motivar ações para reduzir o volume de sofrimento. Isso ocorre porque nossas habilidades analíticas estão bastante desvinculadas de nossas habilidades empáticas. Descobriu-se que o pensamento analítico na verdade pode diminuir a empatia. Pesquisas em psicologia revelaram que mencionar estatísticas grandes que informam sobre a dimensão de um problema ou citar o número de vítimas tende a tornar as pessoas menos – e não mais – inclinadas a fazer doações ou agir, do que simplesmente descrever a situação de uma vítima específica.f

A constatação sistemática das pesquisas em psicologia é de que a proporção importa mais do que a magnitude quando se trata de inspirar uma ação. Um estudo mostrou que as pessoas sentem-se mais motivadas a contribuir para uma causa que ajudaria 1.500 de 3.000 pessoas do que uma causa que ajudaria 1.500 de 10.000 pessoas, apesar de o nível de impacto ser exatamente o mesmo em ambas as situações.g

Um indivíduo poderia ajudar milhões de animais selvagens e ainda assim estar ajudando uma porção pequena deles.

O sofrimento dos animais selvagens não é intencional

O sofrimento dos animais selvagens não tem um infrator para o qual possamos apontar o dedo – não existe maquinação nem intencionalidade. Enquanto alguns defensores de animais selvagens propõem que devamos personificar a Mãe Natureza como uma mãe violenta, não existe nenhuma maneira óbvia de se estabelecer uma culpa pelo sofrimento dos animais selvagens. Uma vez que Brian Tomasik já explorou detalhadamente em um outro ensaio a razão de nossa negligência em relação ao sofrimento dos animais selvagens, não vou entrar em detalhes aqui, mas a ausência de dano intencional é provavelmente uma das principais razões pelas quais o sofrimento dos animais selvagens é ignorado ou banalizado.

Conclusão

Criticar uma pessoa por não levar o sofrimento dos animais selvagens a sério é como criticar um submarino por não ser capaz de se movimentar em uma rua na cidade. Nossos cérebros simplesmente não evoluíram para que nos importemos com o sofrimento dos animais na natureza.

Felizmente, ainda há esperança. Os movimentos mais progressistas têm conseguido superar os vieses cognitivos e as intuições morais mais arraigadas. Por hora, gostaria de delinear as barreiras primárias que o movimento em favor da redução do sofrimento dos animais selvagens enfrenta e, em um ensaio futuro, analisar meios de superá-las.


Notas

(a) Embora, tecnicamente, ataques de tubarão possam ser considerados uma forma de sofrimento de animais selvagens se seres humanos forem classificados como animais selvagens.

(b) Estou usando “nossas” aqui levando em consideração o tipo de pessoa que eu imagino vá ler esse artigo. Em alguns lugares do mundo, riscos ambientais mais imediatos ainda são a maior ameaça.

(c) Estou definindo problemas éticos aqui como fontes evitáveis de sofrimento. Ainda pode parecer estranho caracterizar a malária como um problema moral. Se for o caso, assista esta apresentação de Peter Singer. Ele argumenta que gastar nosso dinheiro com coisas supérfluas que não precisamos em vez de fazer doações para salvar crianças de doenças que podem ser tratadas de modo barato, tais como a malária, é uma falha moral tão grave quanto não salvar uma criança que esteja se afogando em um chafariz.

(d) Pinker, Steven. “Os anjos bons da nossa natureza: por que a violência diminuiu”. Penguin Books, 2011

(e) Não estou sugerindo que essa candidata política estaria certa, apenas que suas ideias seriam tão controversas a ponto de fazê-la perder a eleição.

(f) Referências:

Small, Deborah A., George Loewenstein e Paul Slovic. “Sympathy and callousness: The impact of deliberative thought on donations to identifiable and statistical victims.” Organizational Behavior and Human Decision Processes 102.2 (2007): 143-153.

Small, Deborah A., e George Loewenstein. “Helping a victim or helping the victim: Altruism and identifiability.” Journal of Risk and Uncertainty 26 (2003): 5-16.

Slovic, Paul. “‘If I look at the mass I will never act’: Psychic numbing and genocide.” Judgment and Decision Making 2.2 (2007): 79-95.

Smith, Robert W., David Faro, and Katherine A. Burson. “More for the many: The influence of entitativity on charitable giving.” J. Consumer Res. Forthcoming.

(g) D. Fetherstonhaugh, P. Slovic, S. M. Johnson, e J. Friedrich. “Insensitivity to the Value of Human Life: A Study of Psychophysical Numbing.” Journal of Risk and Uncertainty 14 (1997): 283-300.

O artigo original em inglês pode ser lido aqui: “Why Most People Don’t Care About Wild-Animal Suffering

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