Sistema nervoso de um gafanhoto. Encyclopædia Britannica, Inc.

O dilema do gafanhoto e o interesse em viver

por Lara André

Considere o seguinte experimento mental. Imagine que você acordou hoje e descobriu que não é mais um ser humano – você agora é um gafanhoto. Você é informado que irá morrer no final do dia e poderá fazer uma escolha.

1) morrer em consequência da ação de um pesticida neurotóxico criado pelos seres humanos. O pesticida agirá em seu sistema nervoso e causará uma convulsão, seguida de paralisia e morte.1

2) morrer predado por um sapo. Seu corpo será aprisionado pela língua pegajosa de seu predador e esmagado contra o céu da boca do anfíbio e, ainda possivelmente semivivo, você irá para o estômago do sapo onde receberá um banho de sucos digestivos e terá seu corpo macerado, o que resultará finalmente em sua morte.

Qual seria sua escolha? Se o seu interesse era viver2, para você faria diferença morrer em consequência de um pesticida desenvolvido por humanos ou em consequência de predação (um processo natural)? Você pensaria que talvez teria sido melhor não ter nascido se sua breve vida será terminada de modo drástico e torturante, qualquer que seja sua escolha?

A maioria das pessoas não têm o hábito de se colocar no lugar das vítimas de um dano – e o problema se agrava uma vez que, se questionadas, tendem a dizer que, no caso do experimento mental proposto, para esse gafanhoto, a opção de morte número 2 seria melhor, não porque causaria menos sofrimento, mas apenas porque seria uma morte resultante de um processo “natural”, mesmo ambos os tipos de morte sendo indesejáveis para o inseto.

Até mesmo os defensores dos animais tendem a a escolher as opções “naturais” – não porque as considerem menos piores para as vítimas não humanas, mas porque deixam interesses antropocêntricos interferir na escolha (o pesticida seria ruim para os humanos também) e além disso, recorrem à falácia do “apelo à natureza”3, um argumento falho segundo o qual tudo o que é “natural” ou se repete há muito tempo na natureza é necessariamente melhor. Essa falácia é comumente cometida por aqueles que possuem uma visão distorcida da natureza, a chamada visão idílica da natureza.4

Outro problema ainda é que, uma vez convencidas de que a opção natural é melhor, as pessoas também tendem a não pensar em outras soluções para um problema de modo que se leve em consideração os possíveis interesses das vítimas – no exemplo dos gafanhotos, quando eles se tornam inconvenientes para a prática da agricultura humana, se estabelece imediatamente um falso dilema: ou os gafanhotos devem ser eliminados com pesticidas, ou devem ser eliminados “naturalmente” por predadores.

Raramente alguém pensa que talvez exista uma solução melhor: talvez exista um modo de cultivar alimentos que seja benéfico para os humanos sem ser maléfico para os insetos? Por exemplo, fazendas especiais superlimpas5 que utilizam novas tecnologias e já foram construídas em alguns países podem produzir uma série de alimentos que dispensam tanto o uso de pesticidas6 quanto a ação deletéria de predadores como “controle biológico” de superpopulações indesejadas de gafanhotos – em tais fazendas, plantas se desenvolvem bem em um ambiente controlado onde insetos nem sequer chegam a entrar.

Infelizmente, muitas soluções tecnológicas que podem ser benéficas para as várias partes envolvidas em um problema também costumam ser automaticamente desprezadas porque o mesmo viés cogntivo que leva as pessoas a assumirem que soluções naturais são sempre melhores (mesmo que causem algum tipo de dano ou sofrimento), também as leva a menosprezar irracionalmente a ciência e a tecnologia e a julgar que algo como a predação ainda é preferível a qualquer solução alternativa. Dessa forma, muitas pessoas acabam defendendo que uma coisa é certa a se fazer, mesmo que coincida com o que é o pior possível para os animais. Partem de uma visão que diz que o certo não é buscar o bem dos animais, mas que há certos interesses a serem preservados que estão acima do bem dos animais.

Obviamente a predação, por exemplo, só é defendida como solução “preferível”, “aceitável” ou mesmo “inevitável” por conta do viés especista7 – se as vítimas fossem humanas, a predação natural jamais seria considerada uma solução moralmente aceitável.

Notas

1. MATIAS, R.S. Como agem os inseticidas nos insetos. 24 de novembro de 2014. Disponível em: <http://matiassinantropicos.blogspot.com.br/2014/11/como-agem-os-inseticidas-nos-insetos.html>. Acesso em 18 mar. 2016.
2. Interesse em viver. In: Ética Animal. Disponível em: <http://www.animal-ethics.org/interesse-viver/>. Acesso em 19 mar. 2016.
3. Falácia do apelo à natureza. Disponível em: <http://suafalacia.com.br/apelo-a-natureza/> Acesso em 20 mar. 2016

4. HORTA, O. Debunking the idyllic view of natural processes. Télos. vol. XVII/1, p. 73-88. 2010. Disponível em: <http://www.usc.es/revistas/index.php/telos/article/download/284/250>. Acesso em: 19 mar. 2016.
5. A fazenda indoor inovadora com luzes LED que não usa agrotóxicos e pode revolucionar o mundo agrícola. Disponível em: <http://www.hypeness.com.br/2014/09/fazenda-high-tech-substitui-luz-solar-por-leds-e-produz-ate-10-mil-cabecas-de-alface-por-dia/>. Acesso em 20 mar. 2016.
6. Agricultura do futuro: uma fazenda subterrânea em Londres que produz verduras sem pesticidas: Disponível em: <http://www.vortexmundi.com.br/fazenda-subterranea/>. Acesso em 20 mar. 2016
7. O que é o especismo. In: Ética Animal. Disponível em: <http://www.animal-ethics.org/especismo-pt/>. Acesso em 20 mar. 2016.

2 comments

  1. Great post! I like all the ethical points you made. My only disagreement is more practical: I fear that underground or multi-story indoor farms will increase total insect suffering. That’s because such farms will increase the world’s net primary productivity, creating more total plant matter to be eaten by detritivorous insects and other organisms.

    Growing crops outdoors on a field means displacing native plant growth. But growing plants underground or in multi-story buildings allows for more total plant growth to take place.

    • Hi Brian, sorry for the late response – I’m aware of your objection/concern, you have a valid point there – however, I think it’s possible to promote indoor farming (either underground or multi-story) for its anti-speciesist advantages over conventional farming (both organic and non-organic) because in such hi-tech farms we actually have no insects at all (they are meant to be “superclean” environments) and if croplands are eventually abandoned in favor of urban indoor farms, we could still simultaneously advocate for the non re-creation/expansion of nature where it has already been displaced (something I, personally, already do) – for instance, instead of allowing the (natural or artificial) reforestation of ex-croplands (which would certainly increase insect suffering), these areas could be occupied by some form of non-green architectural solution (graveling, expansion of the urban landscape etc) or even something more futuristic such as algae landscaping/farming (with the advantage of being a “green” solution that eliminates the problem with insect suffering).

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