National Geographic flagra infanticídio entre ursos polares

por Lara André

Resumo da notícia

Enquanto filmava na costa da Ilha de Baffin no Canadá em fevereiro de 2016, a equipe do National Geographic Explorer se deparou com uma cena raramente testemunhada por seres humanos: um urso polar macho canibalizando um filhote. Esse fenômeno brutal tem sido estudado desde os anos 1980, mas essa filmagem recente mostra o quão dura a vida no Ártico pode ser.

Eventos de predação entre ursos ocorrem mais frequentemente no final do verão e no outono, algo que alguns biólogos atribuem à falta de alimento. Durante os meses de verão, as populações locais de focas se afastam das praias, deixando os ursos polares com poucas opções de comida.

Segundo o biólogo Ian Stirling entrevistado pela National Geographic, “a única coisa que sobra para os ursos comerem são seus próprios filhotes, de idades variadas”. Apesar disso, tal comportamento também foi observado na primavera, uma época em que filhotes de foca são abundantes na região.

Pode parecer difícil assistir a cenas tão brutais (veja o vídeo abaixo), mas canibalismo e infanticídio são comuns no mundo selvagem. Em alguns casos, como o infanticído de filhotes de leão marinho,  o fato ocorre em decorrência de competição por parceiros reprodutivos. Já as fêmeas de mangusto (mamífero carnívoro africano) matam qualquer filhote nascido antes de seus próprios filhotes para assegurar que seus bebês receberão ampla proteção dos membros do grupo. Canibalismo também ocorre entre hipopótamos, salamandras, bichos-preguiça e várias outras espécies.

Cientistas especulam que a mudança climática pode estar tornando o infanticídio e o canibalismo mais comuns entre os ursos polares, devido à redução do tamanho de seu habitat no Ártico.

Comentário do Perspectiva Animal

É comum que as pessoas tenham uma visão idílica da natureza e achem que animais selvagens têm vidas boas a maior parte do tempo e que, portanto, não precisam ser ajudados. Essa visão, infelizmente, está muito distante da realidade. Animais selvagens, tais como os ursos polares, têm que enfrentar condições climáticas extremas, sofrem com frequência com a falta de alimentos e além de predarem animais de outras espécies para sobreviver (causando sofrimento e morte a esses indivíduos) também acabam, muitas vezes, matando indivíduos vulneráveis de sua própria espécie. Como é ressaltado na matéria, o infanticídio, um ato de extrema violência, é relativamente comum no natureza – contrariando também a visão prevalente de que o pior tipo de violência que um animal não humano pode sofrer é aquela causada por um ser humano.

Um outro problema que surge quando avaliamos situações que envolvem sérios prejuízos aos interesses dos animais não humanos que vivem em ambientes selvagens refere-se à visão veneradora da natureza – diferentemente das pessoas que idealizam a natureza, muitas pessoas reconhecem que a vida é violenta e desafiadora para os animais selvagens, mas por defenderem valores ambientalistas ecocêntricos (que colocam os interesses de entidades não sencientes, tais como “ecossistemas” ou “espécies” acima dos interesses dos indivíduos sencientes) acham que nada deve ser feito para reduzir a quantidade de violência e sofrimento na natureza – uma visão que revela um claro viés especista, já que quando as vítimas de danos naturais são seres humanos, não se defende que a vítimas não devam ser ajudadas.

É importante também ressaltar que muitas pessoas têm a tendência de atribuir acontecimentos dramáticos na natureza à mudança climática antrópica – isso frequentemente induz ao erro de se achar que, não fosse a ação deletéria de seres humanos no planeta, os animais selvagens teriam vidas perfeitas ou muito boas. Essa visão também é equivocada porque, na maioria dos casos, o que o aquecimento global e os outros efeitos indesejados da mudança climática podem causar é, na verdade, apenas uma piora em uma situação que já normalmente é muito difícil para os animais selvagens, que é a luta pela sobrevivência em seus habitats naturais.

Para que possamos vislumbrar meios de ajudar os animais selvagens de modo seguro e eficaz, precisamos primeiramente reconhecer que eles precisam enormemente de ajuda, identificando as principais dificuldades e fontes de sofrimento aos quais eles estão submetidos e desenvolvendo soluções viáveis com auxílio de estudos científicos e recursos tecnológicos.

Sugestões de leitura complementar

“Sofrimento dos animais selvagens” em Ética Animal:  “Os animais não humanos que vivem na natureza têm vidas que estão longe de serem idílicas, e a maioria deles tem que lidar com a existência ou com a constante ameaça de sofrimento enorme. Muitas pessoas não percebem ou não pensam sobre esse aspecto da vida na natureza. Outros acreditam que os animais selvagens podem enfrentar seu sofrimento melhor que animais domesticados. Muitas pessoas têm uma visão romantizada dos animais selvagens; elas pensam que os animais selvagens são como guerreiros espartanos que não sentem dor, ou, pelo menos, não a sentem da mesma forma que seres humanos e animais domesticados. Isso é simplesmente falso.”

– Esta citação sobre canibalismo e fratricídio na natureza do filósofo Daniel Dennett: “[…] em todas as espécies mamíferas estudadas atentamente até hoje, o índice de envolvimento de seus membros na matança de co-específicos é milhares de vezes maior do que o mais alto índice de homicídio de qualquer cidade dos Estados Unidos. […] Esta sinistra mensagem sobre nossos amigos peludos costuma encontrar resistência, e as apresentações populares da natureza (em documentários divulgados pela televisão, artigos de revistas e livros) muitas vezes passam por censura para não chocar as pessoas mais sensíveis. Hobbes estava certo: a vida no estado natural é desagradável, brutal e curta, para virtualmente todas as espécies não-humanas.” Leia o trecho completo aqui.

– Este artigo acadêmico (em inglês) escrito por Eze Paez: “Recusando ajuda e inflingindo danos. Uma crítica à visão ambientalista” – Resumo traduzido para o português: “Devido a uma variedade de causas naturais, o sofrimento predomina sobre o bem-estar nas vidas de animais selvagens. A partir de um posição antiespecista que considera os interesses de todos os indivíduos sencientes, deveríamos intervir na natureza para beneficiar esses animais, desde que o resultado esperado tenha um saldo positivo. No entanto, de acordo com a visão ambientalista, o objetivo de beneficiar os animais selvagens não pode justificar intervir na natureza. Além disso, intervenções humanas danosas podem às vezes serem justificadas. Essa visão assume que (i) certas entidades tais como ecossistemas ou espécies tem valor intrínsico, e que (ii) pelo menos algumas vezes tais valores são mais importantes que o bem-estar dos animais não humanos. Neste artigo, reviso os argumentos que apoiam essa visão propostos por três proeminentes ambientalistas (Albert Schweitzer, Paul W. Taylor e J. Baird Callicott) e mostro como nenhum deles obteve sucesso no embasamento de suas premissas.”

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