Ave marinha soterrada até o pescoço após tsunami que atingiu o Atol Midway no Pacífico em 2011. crédito: Pete Leary/USFWS Pacific
Ave marinha soterrada até o pescoço após tsunami que atingiu o Atol Midway no Pacífico em 2011. Esta ave foi posteriormente resgatada com vida, mas centenas de milhares de aves da região não tiveram a mesma sorte. crédito: Pete Leary/USFWS Pacific

John Stuart Mill: “O rumo da Natureza não pode ser um modelo apropriado para imitarmos”

Introdução: Lara André
Tradução: Ricardo Torres

Este é um trecho do ensaio “Sobre a Natureza” (“On Nature”) escrito em 1874 pelo filósofo inglês John Stuart Mill. No século XIX, muita gente fazia um elogio à “vida selvagem” e defendia a ideia de que os seres humanos deveriam “viver de acordo com a natureza” – na verdade, essa é uma ideia ainda bastante popular nos dias de hoje – mas Mill discordava profundamente dessa visão. Para ele, tudo que melhora a vida dos seres humanos no planeta deriva de ações que tentam justamente mudar o curso da natureza, uma natureza que ele descreve como profundamente violenta e indiferente ao sofrimento e à morte. Por isso, para ele, o dever dos seres humanos seria o de superar a natureza, em vez de usá-la como modelo de comportamento moral.

Mas podemos também ler o ensaio de Mill e, a partir de um ponto de vista não especista, concluir que não são apenas os seres humanos que devem ser beneficiados por ações transformadoras da natureza – animais não humanos que vivem no mundo selvagem também são igualmente prejudicados por processos naturais danosos (como fome, sede, doenças, desastres naturais etc) e nosso objetivo de buscar reduzir a quantidade de sofrimento e as mortes causadas por mecanismos naturais deve ser ampliado para incluir também todos os indivíduos sencientes de outras espécies.  Este trecho de “Sobre a Natureza” expõe de forma muito clara e contundente, o modo como Mill enxergava a natureza e as possíveis implicações de se tomar a natureza como guia para nossas condutas morais. O ensaio também pode ser lido na íntegra (em português) aqui.

“[…] Pois, por mais ofensiva que a proposição possa parecer a muitas pessoas religiosas, elas devem estar desejando olhar na face o fato inegável que a ordem da natureza, na medida em que esteja inalterada pelo homem, é tal que nenhum ser, cujos atributos são justiça e benevolência, a teria feito com a intenção de que suas criaturas racionais devam segui-la como um exemplo. Se feita totalmente por tal Ser, e não parcialmente por seres de qualidades muito diferentes, poderia apenas ser um trabalho intencionalmente imperfeito, no qual o homem, em sua esfera limitada, deve exercer a justiça e a benevolência para alterá-lo. As melhores pessoas sempre sustentaram ser a essência da religião que o dever primordial do homem na terra é alterar-se; mas todas exceto quietistas monásticos anexaram a isso em suas mentes íntimas (embora raramente desejando enunciar a obrigação com a mesma clareza) o dever religioso adicional de alterar o mundo, e não somente sua parte humana, mas a material – a ordem da natureza física.

Ao considerar esse assunto é necessário despojar-nos de certas preconcepções que podem justamente ser chamadas de preconceitos naturais, sendo baseadas em sentimentos que, por eles próprios naturais e inevitáveis, penetram em questões com as quais não deveriam ter nenhuma relação. Um desses sentimentos é o espanto, chegando a se tornar temor, que é inspirado (mesmo independentemente de todos os sentimentos religiosos) por qualquer dos maiores fenômenos naturais. Um furacão; um precipício de uma montanha; o deserto; o oceano, seja agitado ou em repouso; o sistema solar, e as grandes forças cósmicas que o mantêm unido; o ilimitado firmamento, e para uma mente educada qualquer simples estrela – excitam sentimentos que fazem todos empreendimentos e poderes humanos parecerem tão insignificantes que, para uma mente assim ocupada, parece uma presunção sofrível uma criatura tão frágil como o homem olhar criticamente para coisas tão acima de si, ou ousar medir-se contra a grandeza do universo. Mas uma pequena interrogação da nossa própria consciência será suficiente para convencer-nos que o que faz esses fenômenos tão impressionantes é simplesmente sua imensidão. A enorme extensão em espaço e tempo, ou o enorme poder que eles exemplificam, constitui sua sublimidade; um sentimento, em todos os casos, mais aliado a terror que à emoção moral. E embora a vasta escala desses fenômenos possa bem excitar admiração, e estabeleça como rebeldia toda ideia de rivalidade, o sentimento que inspira é de um caráter totalmente diferente de admiração da excelência. Aqueles em quem o terror produz admiração podem ser esteticamente desenvolvidos, mas são moralmente incultos. É um dos dons da parte imaginativa de nossa natureza mental que concepções de grandeza e poder, vividamente percebidas, produzam um sentimento que, embora em seus graus mais elevados se aproxime estreitamente da dor, nós preferimos à maioria dos que são considerados prazeres. Mas estamos igualmente bastante capazes de experimentar esse sentimento para o poder maléfico; e nunca o experimentamos tão fortemente para a maioria dos poderes do universo como quando temos mais presente em nossa consciência uma sensação vívida de sua capacidade de infligir mal. Porque esses poderes naturais têm o que nós não podemos imitar, um enorme poder, e intimidam-nos por tal atributo, seria um grande erro inferir que seus outros atributos são tais que nós devemos simular, ou que nós devemos estar justificados ao usar nossos pequenos poderes a partir do exemplo que a Natureza nos mostra com suas vastas forças. Como se sustenta o fato que, ao lado da grandeza dessas forças cósmicas, a qualidade que mais forçosamente atinge todo aquele que não desviar seus olhos é sua imprudência perfeita e absoluta? Elas vão direto para seu fim, sem considerar o que ou quem esmagam no caminho. Otimistas, em suas tentativas de provar que “tudo que é, é certo”, são obrigados a manter, não que a Natureza alguma vez desvia um passo de seu caminho para evitar atropelar-nos à destruição, mas que seria muito irracional esperarmos que ela devesse fazê-lo. A frase de Pope “Deve a gravitação cessar quando você passar?” pode ser uma justa repreensão a qualquer um que seja tão tolo para esperar moralidade humana comum da natureza. Mas se a questão fosse entre dois homens, em vez de entre um homem e um fenômeno natural, aquela apóstrofe triunfal seria considerada um exemplo raro de insolência. Um homem que persista em lançar pedras ou disparar um canhão quando outro homem “passar”, e tendo matado-o inste um apelo semelhante como desculpa, muito merecidamente seria considerado culpado de assassinato.

Na grande realidade, quase todas as coisas pelas quais os homens são punidos ou aprisionados por fazerem uns aos outros são performances cotidianas da natureza. Matar, o ato mais criminoso reconhecido pelas leis humanas, a Natureza faz a todo ser que vive; e, em grande número de casos, após prolongadas torturas como só os maiores monstros de quem lemos sobre alguma vez infligiram propositadamente em suas criaturas vivas. Se, por uma ressalva arbitrária, recusamos considerar qualquer coisa como assassinato além do que engloba um certo termo suposto a ser atribuído à vida humana, a natureza também o faz para todas exceto uma pequena porcentagem de vidas, e o faz por todos os modos, violentos ou traiçoeiros, com os quais os piores seres humanos tiram a vida uns dos outros. A Natureza empala os homens, quebra-os como num moinho, atira-os para serem devorados por bestas selvagens, queima-os até a morte, esmaga-os com pedras como os primeiros mártires cristãos, mata-os de fome, congela-os com frio, intoxica-os pelos venenos rápidos ou lentos de suas exalações, e tem centenas de outras mortes hediondas na reserva, como a crueldade engenhosa de um Nabis ou um Domiciano nunca superaram. Tudo isso a Natureza faz com o maior desprezo arrogante tanto de piedade como de justiça, cobrindo indiferentemente o melhor e o mais nobre com o mais vil e o pior; o mesmo àqueles que estão envolvidos com as empresas mais elevadas e mais dignas, frequentemente como direta consequência dos atos mais nobres; e isso pode quase ser imaginado como uma punição por eles. Ela ceifa aqueles em cuja existência encontra-se o bem-estar de um povo inteiro, talvez a esperança da humanidade para gerações futuras, com tão pouco remorso como àqueles cuja morte é um alívio para si, ou uma benção àqueles sob sua influência nociva. Tais são as condutas da Natureza com a vida. Mesmo quando ela não pretende matar ela inflige as mesmas torturas com aparente libertinagem. Na provisão desastrosa que ela fez para a perpétua renovação da vida animal, tornada necessária pelo fim imediato que ela coloca em cada caso individual, nenhum ser humano nunca vem ao mundo exceto se outro ser humano é literalmente torturado por horas ou dias, não raramente levando-o à morte. Após retirar a vida (equivalendo a isso de acordo com certa grande autoridade) retira os meios pelos quais vivemos; e a Natureza faz isso também na escala mais ampla e com a indiferença mais insensível. Um único furacão destrói a esperança de uma estação; um voo de gafanhotos, ou uma inundação, desola um distrito; uma insignificante mudança química numa raiz comestível mata de fome um milhão de pessoas. As ondas do mar, como bandidos, confiscam e se apropriam da riqueza dos ricos e do pouco dos pobres ao mesmo tempo em que despe, fere e mata como seus equivalentes humanos. Tudo, em resumo, que os piores homens cometem contra a vida ou a propriedade é perpetrado em maior escala por agentes naturais. A Natureza tem Noyades mais fatais que aqueles de Carrier; suas explosões de grisu são tão destrutivas quanto a artilharia humana; sua praga e cólera superam em muito os envenenamentos dos Borjas. Até mesmo o amor à “ordem”, que é considerado ser uma consequência dos métodos da Natureza, é, na verdade, uma contradição delas. Tudo que as pessoas estão acostumadas a desaprovar como “desordem” e suas consequências são precisamente uma duplicata dos fatos da Natureza. A Anarquia e o Reino do Terror são superados em injustiça, ruína e morte por um furacão e uma epidemia.

Mas, dizem, todas essas coisas são para fins sábios e bons. Sobre isso eu preciso primeiro observar que se elas são assim ou não é totalmente irrelevante. Supondo que seja verdadeiro que, ao contrário das aparências, esses horrores, quando cometidos pela Natureza, promovem bons fins, ainda assim, como ninguém acredita que bons fins seriam promovidos por seguirmos seu exemplo, o rumo da Natureza não pode ser um modelo apropriado para imitarmos. Ou está correto que devemos matar porque a natureza mata; torturar porque a natureza tortura; arruinar e devastar porque a natureza faz assim; ou não devemos considerar absolutamente o que a natureza faz, mas o que é bom fazer. Se existe tal coisa como um reductio ad absurdum, isso certamente equivale a um. Se é uma razão suficiente para fazer algo, que a natureza o faça, por que não outra coisa? Se nem tudo é uma razão, por que o é alguma coisa em particular? O governo físico do mundo sendo cheio das coisas que quando feitas por homens são consideradas as maiores atrocidades, não pode ser religioso ou moral guiarmos nossas ações pela analogia da conduta da natureza. Essa proposição permanece verdadeira, qualquer qualidade oculta de produzir o bem que possa residir naqueles fatos da natureza que para nossas percepções são mais nocivos, e que ninguém considera-os senão como crime produzir artificialmente.

Mas, na realidade, ninguém acredita consistentemente em qualquer dessas qualidades ocultas. As frases que atribuem perfeição à conduta da natureza podem apenas ser consideradas como exageros de sentimentos poéticos ou devotos, não planejadas para resistir ao teste de um exame sóbrio. Ninguém, seja religioso ou não, acredita que as dolorosas ações da natureza, consideradas como um todo, promovem bons propósitos, de qualquer outro modo além de incitar criaturas humanas racionais a erguerem-se e lutarem contra elas. Se acreditássemos que aquelas ações são designadas por uma Providência benevolente como os meios de cumprir sábios propósitos que não poderiam ser alcançados se elas não existissem, então tudo feito pela humanidade que tende a atenuar essas ações naturais ou restringir suas operações maliciosas, de drenar um pântano pestilento a curar a dor de dentes, ou levantar um guarda-chuva, deveria ser considerado ímpio; o que seguramente ninguém o considera, apesar de uma corrente de sentimentos apontando nessa direção que é ocasionalmente perceptível. Pelo contrário, as melhorias de que a parte civilizada da humanidade mais se orgulha consistem em afastar com maior sucesso aquelas calamidades naturais que, se realmente acreditássemos no que a maioria das pessoas professa acreditar, deveríamos valorizar como medicamentos fornecidos para nossa situação terrena pela sabedoria infinita. Visto que, igualmente, cada geração ultrapassa largamente suas antecessoras na quantidade de mal natural que consegue evitar, nossa condição, se a teoria fosse verdadeira, deveria atualmente ter se tornado uma manifestação terrível de uma tremenda calamidade, contra a qual os males físicos que aprendemos a subjugar haviam operado previamente como prevenção.ualquer um, contudo, que agisse como se considerasse ser esse o caso seria mais provavelmente, penso eu, confinado como um lunático que reverenciado como um santo.”

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