crédito: Jo-Anne McArthur / We Animals
crédito: Jo-Anne McArthur / We Animals

Igualitarismo e antiespecismo: implicações do igualitarismo na consideração moral dos animais não humanos

Por Catia Faria
Tradução: Lara André

O igualistarismo é a posição normativa que defende que devemos agir com o objetivo de minimizar a desigualdade entre os indivíduos. Muitas pessoas têm intuições igualitaristas. Considera-se habitualmente que é ruim que alguns estejam pior para que outros estejam melhor. Aqueles que defendem o igualitarismo sustentam que a desigualdade entre os indivíduos deve ser tratada com o objetivo de neutralizar os efeitos de fatores moralmente arbitrários na distribuição do que faz com que a vida dos indivíduos seja melhor ou pior. No entanto, o igualitarismo (com raras exceções) tem somente se preocupado com os efeitos da desigualdade nos seres humanos. Mas há fortes razões para pensar que, se somos verdadeiramente igualitaristas, necessariamente devemos também ter em consideração os animais não humanos.

Segundo o igualitarismo, a igualdade (do que é bom para os indivíduos ou dos recursos para alcançar o bom) deve ser aplicada a todos os seres para os quais as coisas podem ser boas ou ruins, quer dizer, a todos os seres cujas vidas podem ser melhor ou pior. A senciência – a capacidade de ter experiências positivas ou negativas – é, dessa maneira, necessária e suficiente para que um indivíduo possa ser afetado positiva ou negativamente. Portanto, a igualdade não pode estar restringida aos seres humanos, mas deve ser aplicada a todos os seres sencientes, sejam humanos ou não humanos. O igualitarismo implica, pois, o antiespecismo.

O igualitarismo é frequentemente confundido com qualquer posição que apele à igualdade. Por exemplo, a célebre frase de Peter Singer “Todos os animais são iguais” é comumente tomada como sendo uma declaração igualitarista. Porém, esse slogan funciona para Singer como um atalho do princípio de igual consideração de interesses aplicado para além da espécie humana. Equivale a dizer, se A é igual a B no que é relevante (a senciência), então independentemente da espécie a que pertençam, os interesses de A e B devem ser igualmente considerados. Agir de outro modo seria uma instância de especismo, a discriminação de alguns indivíduos baseada em sua filiação a uma determinada espécie. Ainda que a igual consideração de interesses seja necessária para o igualitarismo, o igualitarismo vai muito mais além da mera consideração de interesses.

Se a igualdade se aplica a todos aqueles, humanos ou não humanos, cujas vidas podem ser melhor ou pior, então promover a igualdade não implica somente a consideração igualitária dos interesses não humanos. Implica também a satisfação prioritária desses interesses, dado que a maioria dos animais não humanos está significantemente pior que a maioria dos seres humanos. Quando levamos em conta os danos que os seres humanos causam aos demais animais, podemos ver quão terrível é a situação em que eles se encontram. Atualmente, os animais não humanos são usados como recursos em um grande número de situações para beneficiar os seres humanos, tais como na alimentação, no vestuário, no entretenimento ou a experimentação científica. Essas práticas causam sofrimento e morte de forma massiva aos animais não humanos. Eles levam, portanto, vidas miseráveis por causa do dano infligido por seres humanos. Mas além disso, os animais não humanos sofrem múltiplos danos por causas naturais. Isso é particularmente verdadeiro com relação aos animais que vivem na natureza, os quais padecem enormemente devido a fenômenos naturais como fome, doenças, condições climáticas extremas, parasitismo, etc.

As implicações disso são claras. Se queremos promover a igualdade entre indivíduos sencientes, devemos abandonar as práticas que prejudicam a alguns (não humanos) para beneficiar a outros (humanos). Assim, o igualitarismo implica o veganismo. Contudo, a consideração desigual entre humanos e não humanos não se manifesta unicamente por meio dos danos que causamos aos não humanos que não julgaríamos justo causar a seres humanos. Essa desigualdade também se manifesta na maneira como agimos para beneficiar a uns ou outros. Quando os indivíduos afetados são seres humanos, pensamos que não é suficiente apenas não lhes causar danos. Cremos que devemos também, sempre que possível, prevenir ou aliviar os danos que sofrem por outras causas. Isso implica que não somente devemos deixar de prejudicar a outros indivíduos, mas que devemos também agir para impedir que outros o façam. O igualitarismo, dessa forma, exige difundir o veganismo. Requer também reduzir os danos que os animais sofrem naturalmente. Se somos igualitaristas e, portanto, preocupa-nos a situação dos que estão pior, devemos agir para melhorar a situação dos animais não humanos (domésticos ou na natureza) independentemente das causas (agência humana ou eventos naturais) dos danos que lhes prejudicam, do mesmo modo que o fazemos quando estão em jogo interesses humanos.

Poder-se-ia dizer que a tese igualitarista da consideração preferencial dos que estão pior não implica necessariamente priorizar os interesses dos não humanos. Isso seria assim porque também há seres humanos em situações muito desfavoráveis. Dessa forma, deveríamos buscar melhorar a situação desses seres humanos em vez de trabalhar para melhorar a dos demais animais. Mas isso é insustentável. A situação dos seres humanos que estão pior ainda é melhor do que a situação da gigantesca maioria dos animais não humanos. Isso equivale a dizer que, ainda que alguns seres humanos possam estar pior em relação a ouros seres humanos, a maioria segue melhor em comparação aos animais não humanos que sofrem em fazendas, laboratórios ou que são comidos vivos por parasitas na natureza. Assim, se rejeitamos o especismo e consideramos a todos os seres sencientes, temos a obrigação de dar prioridade a melhorar a situação em que se encontram os animais não humanos.

Este foi artigo originalmente escrito em espanhol e publicado no site Mirada Animal, podendo ser acessado aqui.

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