Filhote de atobá-de-nazca, uma ave típica de Galápagos, empurra seu irmão mais novo para fora do ninho sem interferência do animal adulto. Fonte: youtube

Daniel Dennett: “Hobbes estava certo: a vida no estado natural é desagradável, brutal e curta”

por Lara André

Neste trecho do capítulo “Sobre a origem da moral” de A perigosa ideia de Darwin: a evolução e os significados da vida, o filósofo Daniel Dennett descontrói a visão idílica da natureza ao comentar sobre o canibalismo e o fratricídio na natureza, ressaltando que esses comportamentos extremamente violentos e sinistros são comuns em ambientes selvagens, onde a vida é  em geral curta e cruel.

“Como George Williams (1988) observa, não somente o canibalismo (comer co-específicos, até parentes próximos) é comum, mas, em muitas espécies, matar irmãos (não vamos dizer assassinar, visto que eles não sabem o que fazem) é quase a regra, não a exceção. (Por exemplo, quando dois ou mais filhotes de águia nascem em um único ninho, o primeiro a sair da casca tende a matar o mais jovem, se conseguir, jogando para fora do ninho os ovos, ou até empurrando para fora os filhotinhos.) Quando um leão conquista uma nova leoa que ainda está amamentando filhotes de um acasalamento anterior, a primeira coisa que ele faz é matar esses filhotes para que a leoa entre mais rápido em estro. Os chimpanzés são conhecidos por travar combates mortais com outros da própria espécie, e o macaco da Índia muitas vezes mata os filhotes de outros machos para ter acesso reprodutivo às fêmeas (Hrdy, 1977) – portanto, até os nossos parentes mais próximos têm comportamentos execráveis. Williams comenta que, em todas as espécies mamíferas estudadas atentamente até hoje, o índice de envolvimento de seus membros na matança de co-específicos é milhares de vezes maior do que o mais alto índice de homicídio de qualquer cidade dos Estados Unidos1.

Esta sinistra mensagem sobre nossos amigos peludos costuma encontrar resistência, e as apresentações populares da natureza (em documentários divulgados pela televisão, artigos de revistas e livros) muitas vezes passam por censura para não chocar as pessoas mais sensíveis. Hobbes estava certo: a vida no estado natural é desagradável, brutal e curta, para virtualmente todas as espécies não-humanas. Se “fazer o que vem naturalmente” significasse fazer o que todas as outras espécies fazem, isso seria um perigo para a saúde e o bem-estar de todos nós. Einstein é conhecido por ter dito que o bom Deus é sutil mas não maldoso; Williams vira pelo avesso essa observação: a Mãe Natureza é insensível – até maldosa -, mas infinitamente burra. Como tantas vezes antes, Nietzsche acha a explicação e dá a ela o seu toque especial:

Você quer viver “de acordo com a natureza”? Oh, nobres estóicos, que palavras enganadoras são estas! Imagine um ser como a natureza, imensuravelmente inútil, indiferente, sem propósito e consideração, sem piedade e injusta, fértil e desolada e incerta ao mesmo tempo: imagine a própria indiferença como uma força – como você poderia viver de acordo com essa indiferença! [Nietzsche, 1885, p.15.]”


Nota

1. Gould chama atenção para a mesma surpreendente estatística em “Ten Thousand Acts of Kindness”, em Gould, 1993d.

DENNETT, Daniel C. A perigosa ideia de Darwin: a evolução e os significados da vida. Trad. Talita M. Rodrigues Mourão. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

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